Áudio revela orientação para omitir falha em avião da Voepass antes de tragédia de Vinhedo
Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 25/07/2026
Um áudio obtido pela EPTV, afiliada da TV Globo, revela que um funcionário da manutenção da Voepass orientou um piloto a não registrar uma falha técnica identificada durante um voo para evitar que a aeronave fosse retirada de operação.
Na gravação, o funcionário pede que o piloto converse com o colega que assumiria o avião para que o problema não fosse registrado oficialmente.
“Precisava que você entrasse em contato com o [nome omitido], é ele que vai assumir o seu avião aí, para não reportar a PACK, porque ele vai assumir a aeronave aí e vai conversar contigo. Só para não reportar, para não ficar AOG aí”, diz o áudio.
A sigla AOG (Aircraft on Ground) é utilizada quando uma aeronave precisa permanecer em solo devido à necessidade de manutenção ou à ocorrência de uma pane. Já a PACK é um componente responsável pelo sistema de ar-condicionado e de pressurização da aeronave.
O piloto que recebeu a mensagem, e que preferiu não se identificar, afirmou ao g1 e à EPTV que o episódio ocorreu poucos meses após o acidente aéreo em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024. Segundo ele, situações semelhantes eram frequentes dentro da companhia.
Ainda de acordo com o relato, havia pressão para que determinadas falhas não fossem registradas oficialmente, principalmente quando o equipamento já havia passado por manutenção. O piloto afirmou, no entanto, que nunca deixou de reportar problemas que considerava relevantes para a segurança do voo.
Ele também disse que funcionários que insistiam em registrar panes técnicas enfrentavam resistência dentro da empresa.
Em nota, a Voepass informou que não teve acesso ao áudio e afirmou desconhecer a gravação. A empresa ressaltou que possuía um sistema formal de comunicação para registro de falhas e que os colaboradores eram orientados a seguir rigorosamente os procedimentos estabelecidos.
Cenipa aponta “cultura de normalização de desvios”
A gravação reforça uma das conclusões apresentadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no relatório final sobre o acidente de Vinhedo.
Durante a apresentação do documento, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes afirmou que a companhia apresentava uma “cultura de normalização de desvios”, caracterizada pela aceitação de condutas operacionais inadequadas e por falhas no fluxo de informações relacionadas à manutenção das aeronaves.
Segundo o investigador, havia registros incompletos de panes e pressão para evitar que aeronaves fossem retiradas de operação quando os prazos para reparos não eram cumpridos.
O relatório também aponta que esse ambiente contribuiu para o enfraquecimento dos mecanismos de controle operacional e de segurança dentro da empresa.
Com informações do g1
Foto: Reprodução/EPTV