Cientistas alertam para calor na Copa do Mundo e dizem que Fifa coloca jogadores em risco
Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 17/05/2026
Um grupo de cientistas alertou a Fifa que as atuais medidas de segurança contra o calor para a Copa do Mundo masculina de 2026 são “inadequadas” e podem colocar jogadores em risco de danos graves à saúde.
Em uma carta aberta, especialistas internacionais em saúde, clima e desempenho esportivo afirmam que as diretrizes da entidade estão defasadas em relação às evidências científicas atuais e são “impossíveis de justificar”.
Eles pedem que a Fifa adote proteções mais rigorosas, incluindo pausas mais longas para resfriamento e protocolos mais claros para atrasar ou adiar partidas em condições extremas.
O calor deve ser um problema durante o torneio deste verão nos Estados Unidos, Canadá e México, com pesquisadores alertando que as temperaturas em 14 dos 16 estádios utilizados podem ultrapassar níveis considerados perigosos.
Em partes do sul dos EUA e do norte do México, as máximas médias durante o dia costumam ficar entre 30°C e 35°C, podendo se aproximar dos 40°C em períodos mais quentes.
Quando fatores como temperatura, umidade, velocidade do vento e intensidade da radiação solar são considerados em conjunto, os jogadores nas cidades-sede da Copa correm maior risco de sofrer níveis extremos de estresse térmico no organismo.
A Fifa afirmou que está “comprometida em proteger a saúde e a segurança de jogadores, árbitros, torcedores, voluntários e funcionários” e que os riscos relacionados ao clima são avaliados como parte do planejamento do torneio.

Quais são as medidas atuais?
Como parte de seu “compromisso com o bem-estar dos jogadores”, a FIFA introduziu pausas obrigatórias de três minutos para resfriamento em cada tempo de todas as partidas do torneio, independentemente das condições climáticas.
Também haverá bancos climatizados para comissões técnicas e reservas em todas as partidas realizadas em estádios ao ar livre.
A Fifa também utiliza a medida considerada padrão-ouro para calor no esporte, a Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT, na sigla em inglês), que avalia o estresse térmico no corpo ao combinar temperatura e umidade. Um WBGT em torno de 28°C é amplamente considerado um limite a partir do qual o estresse térmico passa a representar uma preocupação significativa para atletas de elite.
Segundo o manual de atendimento de emergência da Fifa, se a leitura de WBGT estiver próxima, em 32°C ou acima disso, os organizadores das partidas devem decidir “quais precauções precisam ser tomadas para evitar qualquer doença relacionada ao calor”.
A Fifa afirma ainda que possui medidas para os torcedores em jogos “quando as previsões indicarem temperaturas elevadas”. Os espectadores poderão levar uma garrafa de água lacrada de fábrica, e os estádios ativarão medidas extras de resfriamento, incluindo áreas de sombra, sistemas de névoa d’água, ônibus climatizados e ampliação da distribuição de água.
O que os cientistas estão pedindo?
Os 20 especialistas que assinaram a carta incluem acadêmicos de destaque do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa.
Eles querem que a Fifa reformule urgentemente sua abordagem, incluindo:
- Adiamento ou suspensão de partidas quando o WBGT ultrapassar 28°C
- Pausas para resfriamento mais longas, de pelo menos seis minutos
- Melhores estruturas de resfriamento para os jogadores
- Atualizações regulares das diretrizes com base nas evidências científicas mais recentes
Os especialistas também pedem que a Fifa adote os padrões propostos pelo sindicato global de jogadores FIFPRO.
‘Irresponsável com a saúde dos jogadores’
Andrew Simms, diretor do New Weather Institute e coordenador da carta, disse à BBC: “A segurança dos jogadores é uma preocupação imediata e urgente porque as coisas podem dar errado muito rapidamente quando as pessoas superaquecem.”
Outro signatário, Douglas Casa, afirmou que grande parte das atuais diretrizes da Fifa está longe do ideal: “A pausa para hidratação em cada tempo precisa absolutamente ser maior do que três minutos — pelo menos cinco minutos por pausa e, de preferência, seis.”

O que a Fifa disse?
A Fifa se recusou a comentar diretamente a carta ou as alegações dos cientistas, mas afirmou que utilizará um “modelo escalonado de mitigação do calor” durante o torneio, com medidas adaptadas às condições em tempo real.
Um porta-voz disse que haverá suporte meteorológico dedicado ao longo de toda a competição, tanto de forma centralizada quanto nas cidades-sede, com monitoramento do WBGT e do índice de calor para orientar a tomada de decisões.
Segundo a entidade, o calendário foi planejado levando em consideração o clima, com horários de início das partidas ajustados, limitação de jogos nos períodos mais quentes sempre que possível e priorização de partidas em condições mais quentes para estádios cobertos.
A Fifa afirmou ainda que o cronograma também busca minimizar deslocamentos e maximizar dias de descanso com base em avaliações específicas de risco de calor em cada local.
A entidade disse que continuará monitorando as condições em tempo real e aplicará medidas de contingência quando necessário, acrescentando que trabalha com autoridades locais e especialistas médicos para garantir um torneio “seguro e resiliente”.
(G1/BBC News)