Editorial: Menos taxa, mais votos

Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 15/05/2026

Semana de 10 a 16 de maio de 2026

A economia brasileira vive um daqueles momentos em que política, consumo popular e estratégia eleitoral parecem caminhar lado a lado.

Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória que zera o imposto federal sobre compras internacionais de até 50 dólares, medida que ficou conhecida nacionalmente como o fim da chamada “taxa das blusinhas”.

Mas, afinal, o que era essa taxa?

A cobrança começou a valer em 2024 e aplicava um imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de pequeno valor feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress.

A justificativa do governo era combater fraudes, contrabando e garantir concorrência mais justa com a indústria nacional.

O problema é que, na prática, milhões de brasileiros passaram a pagar mais caro justamente em produtos populares, comprados por consumidores de renda média e baixa.

Agora, em pleno ano eleitoral, o governo recua e elimina a cobrança federal.

O ICMS estadual continua existindo, mas o peso maior da taxação desaparece. E é impossível ignorar o momento político dessa decisão.

O próprio debate dentro do governo já indicava que a medida era considerada impopular e afetava a imagem do presidente junto ao eleitorado.
Afinal, o comércio eletrônico internacional se tornou parte da rotina econômica do brasileiro. Não estamos falando apenas de “blusinhas”, mas de eletrônicos, acessórios, utensílios domésticos e itens que muitas vezes custam menos do que os vendidos no varejo tradicional.

É claro que toda redução de imposto agrada ao consumidor. Mas a pergunta que fica é: por que zerar agora uma cobrança que o próprio governo defendeu e ajudou a criar?

A resposta, para muitos analistas, está no calendário eleitoral.

E essa percepção ganha força quando observamos outra pauta que cresce em Brasília: as articulações em torno do chamado projeto “seis por um”.

A proposta busca reduzir a jornada tradicional de trabalho, defendendo modelos mais flexíveis e menos desgastantes para o trabalhador brasileiro. O discurso é de melhoria da qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio familiar. Tem apelo popular imediato. Principalmente entre trabalhadores jovens e urbanos.

O problema é que medidas populares costumam ter custo econômico — e alguém sempre paga essa conta.

Enquanto o governo acena ao consumidor e ao trabalhador com redução de impostos e promessas trabalhistas mais leves, pequenos e médios empresários continuam reclamando do aumento da carga tributária provocado pela reforma tributária e por mudanças recentes no sistema fiscal brasileiro.

E aqui está um ponto fundamental do debate!

São justamente os pequenos e médios empresários que sustentam boa parte da economia nacional. São eles que empregam, movimentam comércio, prestam serviços e fazem a roda do PIB girar nas cidades do interior e nos grandes centros.
Quando a carga tributária aumenta para quem produz, investe e emprega, o reflexo aparece nos preços, no custo operacional e até na geração de empregos.

Há uma contradição evidente nesse cenário: de um lado, o governo tenta conquistar popularidade com medidas de forte apelo popular; do outro, amplia mecanismos de arrecadação sobre setores produtivos que já convivem com burocracia, juros altos e insegurança econômica.

E talvez o maior risco esteja justamente aí.

Governos precisam buscar equilíbrio entre responsabilidade fiscal e popularidade. Porque decisões econômicas tomadas apenas para gerar aprovação imediata podem produzir efeitos difíceis no médio prazo.

Reduzir impostos sobre compras internacionais pode agradar milhões de consumidores hoje. Mas a pergunta continua no ar: qual será o impacto amanhã sobre a indústria nacional, sobre o comércio local e sobre quem empreende no Brasil?

O eleitor observa. O mercado também.

E, no fim das contas, entre blusinhas, jornadas de trabalho e reformas tributárias, o brasileiro segue esperando algo muito mais simples: um país onde consumir, trabalhar e empreender não sejam atividades tão pesadas para quem sustenta a economia todos os dias.

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