Páginas “perdidas” do Novo Testamento são descobertas após séculos
Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 30/04/2026
Um manuscrito cristão considerado um dos mais importantes para o estudo do Novo Testamento teve parte de seu conteúdo recuperado séculos após ter sido desmontado e reutilizado.
No século 13, monges do Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, na Grécia, desmembraram um antigo livro religioso para reaproveitar o material em novas encadernações — prática comum na época devido à escassez de pergaminho. O documento era o Códice H, uma cópia do século 6 das cartas de São Paulo.
Embora o reaproveitamento tenha apagado o texto original, o processo deixou marcas invisíveis que, séculos depois, permitiram a recuperação de parte do conteúdo considerado perdido.
Páginas “fantasma” reveladas pela tecnologia
Uma equipe internacional liderada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, anunciou a reconstrução de 42 páginas do manuscrito. Os fragmentos não foram encontrados fisicamente, mas identificados por meio de vestígios deixados pela tinta original nas folhas vizinhas.
Segundo Allen, a tinta usada na reescrita provocou uma transferência química que criou imagens espelhadas quase imperceptíveis a olho nu, mas detectáveis com tecnologias modernas de análise.
Uso de imagens multiespectrais
Para recuperar os textos, pesquisadores utilizaram imagens multiespectrais, técnica que registra diferentes comprimentos de onda de luz para destacar detalhes invisíveis em fotografias das páginas preservadas.
Testes de datação por radiocarbono realizados por especialistas em Paris confirmaram que o pergaminho pertence ao século 6, reforçando a autenticidade do Códice H.
Atualmente, as páginas do manuscrito estão espalhadas por bibliotecas na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.
O que foi descoberto
Parte do material recuperado contém trechos já conhecidos das cartas paulinas. No entanto, o principal valor do achado está em elementos históricos adicionais.
As páginas incluem os registros mais antigos conhecidos de listas de capítulos das cartas de Paulo, diferentes das divisões adotadas atualmente, além de correções e anotações feitas por escribas do século 6. Os registros ajudam pesquisadores a compreender como os textos bíblicos eram estudados, revisados e transmitidos ao longo do tempo.
Um dos sistemas mais antigos de estudo bíblico
O Códice H também é considerado o manuscrito mais antigo conhecido a apresentar o chamado Aparato de Eutálio, um sistema antigo de organização e estudo do Novo Testamento.
Para os pesquisadores, a recuperação representa um avanço significativo nos estudos bíblicos.
“O Códice H é um testemunho fundamental para compreender as escrituras cristãs. Recuperar essa quantidade de evidências sobre sua forma original é algo monumental”, afirmou Allen.
O projeto contou com financiamento do Templeton Religion Trust e do Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido. Uma edição digital de acesso livre já está disponível, e uma versão impressa está em preparação.