Austrália começa experimento que proíbe menores de 16 anos de usarem redes sociais

Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 09/12/2025

Darcey Pritchard, 15, excluiu o Snapchat de seu telefone há cerca de um ano quando se sentiu sugada pelo algoritmo do aplicativo.

Seu amigo Luca Hagop, 15, recentemente passou mais de 34 horas no Instagram em uma semana, compartilhando vídeos de animais de estimação e outros reels “tão aleatórios que são engraçados porque são tão sem graça”.

Amelie Tomlinson, 14, mantém contato com seus amigos no Snapchat e, até recentemente, não tinha o número de telefone de quase ninguém.

Sua amiga Jasmine Bentley, 15 , não tem permissão para usar nenhuma rede social, mas sonha em ser criadora de conteúdo.

Os dois grupos de amigos, que vivem nos subúrbios orientais de Melbourne, Austrália, oferecem uma pequena janela para os relacionamentos extremamente diferentes que os adolescentes de hoje têm com as redes sociais. Mas eles estão unidos em uma frente: não acreditam que uma nova lei australiana que proíbe crianças menores de 16 anos de terem contas em redes sociais, que entra em vigor na quarta-feira (10), mudará muito suas vidas.

A Austrália aprovou a lei há um ano, posicionando-se como um caso de teste para o que muitos pais dizem ser a tarefa de Sísifo desta geração —proteger as crianças dos riscos associados às redes sociais até que sejam capazes de navegar por elas com responsabilidade.

Mas esses adolescentes, nascidos aproximadamente na mesma época em que Instagram e Snapchat foram lançados, são nativos digitais. A maioria sabe como usar VPNs, o que pode ajudá-los a contornar a proibição. Muitos falsificaram suas idades quando se cadastraram pela primeira vez, para driblar a idade mínima de 13 anos exigida por muitos serviços de redes sociais. Outros usaram informações de seus pais para criar contas, ou têm irmãos mais velhos cujas identidades podem usar.

Mais do que qualquer coisa, as redes sociais estão profundamente incorporadas em suas vidas.

“É assim que nos comunicamos”, disse Amelie.

Darcey disse que alguns de seus amigos estavam falando sobre migrar para novos aplicativos. “Você não vai impedir essas pessoas”, disse ela.

REPROGRAMAR IMPULSOS?

Nos últimos anos, pais em todo o mundo têm enfrentado com crescente alarme os prejuízos das redes sociais à saúde mental, o potencial para facilitar o bullying online e os efeitos nos cérebros em desenvolvimento.

A Austrália foi um dos primeiros países a aprovar uma lei nacional para abordar essas preocupações. Em dezembro passado, estabeleceu 16 anos como a idade mínima para contas em redes sociais, o que significa que centenas de milhares de crianças mais jovens perderiam as suas. Outras nações, como a Malásia, seguiram o exemplo com planos semelhantes.

A Austrália está colocando o ônus nas empresas de redes sociais para manter crianças mais jovens fora de suas plataformas e não penalizará pais ou crianças que violarem a lei. Autoridades, incluindo o primeiro-ministro Anthony Albanese, tentaram reduzir as expectativas de que a lei será uma solução imediata.

Eles dizem que estão apoiando os pais que se sentem impotentes diante da atração das redes sociais e da pressão dos colegas entre os adolescentes. Anika Wells, ministra das comunicações, descreveu uma realidade quase idílica com crianças tendo tempo para esportes, culinária ou aprender um novo idioma.

Mas não será tão simples assim. As vidas e amizades de muitos jovens de 13 a 15 anos estão entrelaçadas com as redes sociais — mesmo que as crianças não estejam nelas.

Por exemplo, quando Darcey e seus amigos estavam jogando um jogo de adivinhação online, muitas das pistas eram memes que todos os outros tinham visto no Instagram. Quando Amelie e uma amiga chegaram à escola 15 minutos antes do primeiro sinal, elas fizeram quatro vídeos para o TikTok. Quando Jasmine se maquia, ela se grava, mesmo não estando nas redes sociais. E quando a mãe de Luca morreu há alguns anos, ele achou útil expressar seus sentimentos em um servidor anônimo no Discord.

UMA LEI PODE REPROGRAMAR ESSES IMPULSOS?

Atualmente, 10 serviços de redes sociais estão cobertos pela proibição: Facebook, Instagram, Kick, Reddit, Snapchat, Threads, TikTok, Twitch, X e YouTube. As empresas disseram que não acreditam que uma proibição geral seja a melhor maneira de manter as crianças seguras, mas que, ainda assim, desativarão contas de crianças menores de 16 anos.

“Eles estão arrancando algo que cresceu conosco e se tornou mais parte de nossas vidas a cada dia”, disse Jasmine.

Dois aplicativos populares na Austrália nas semanas que antecederam a lei foram o “Yope”, um aplicativo de compartilhamento de fotos voltado para a Geração Z, e o “lemon8”, uma alternativa ao TikTok de propriedade da mesma empresa controladora, ByteDance, prenunciando um potencial jogo de gato e rato com os reguladores.

Fonte: Folha de SP


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