Mudança no local de fabricação de Rivotril gera desabastecimento nacional nas farmácias

Publicado por departamento de Jornalismo Cruzeiro FM 92,3 em 26/09/2025

Farmácias brasileiras estão sem estoque de Rivotril (clonazepam) nas versões em gotas de 2,5 mg/mL e sublingual de 0,25 mg.

Segundo a Biopas Brasil Produtos Farmacêuticos, fabricante do remédio, o desabastecimento é temporário e ocorre devido a uma “alteração de local de fabricação do medicamento”. Questionada sobre mais detalhes nas alterações, se de mudança estrutural ou de endereço, a empresa não respondeu até a publicação desta reportagem.

A Biopas afirmou que a distribuição da versão em gotas deve ser regularizada ainda em 2025 e a do sublingual no primeiro semestre de 2026. Disse ainda que a apresentação comercial de Rivotril 2 mg com 30 comprimidos continua disponível normalmente.

O Rivotril é amplamente utilizado para tratar diversas condições, incluindo transtornos de ansiedade e de pânico, síndromes psicóticas, crises epilépticas, espasmos infantis (síndrome de West), pernas inquietas, problemas de equilíbrio, síndrome da boca ardente e vertigem, conforme detalhado na bula.

A reportagem acessou os sites das quatro principais redes de drogarias —Droga Raia, Drogasil, Farmácias Pague Menos e Drogarias São Paulo— para verificar a disponibilidade do Rivotril em gotas.

Nos sistemas da Pague Menos e Drogarias São Paulo não foi encontrado estoque do medicamento em nenhuma das cidades consultadas. Já no site da Droga Raia, há disponibilidade de Rivotril em gotas nas cidades de Droga Raia Curitiba e Campo Grande. Na Drogasil, o produto está disponível apenas em Campo Grande e São Paulo.

No entanto, ao ir a unidades da Droga Raia e Drogasil na capital paulista, a reportagem foi informada que não há Rivotril em gotas em nenhuma loja paulistana. O medicamento também não foi encontrado em farmácias menores.

Para a consulta, foi utilizado o CEP de um órgão público de cada uma das 26 capitais brasileiras, além do Distrito Federal. A escolha das drogarias foi baseada nas informações da Biopas, que, por email, recomendou essas quatro redes aos pacientes que reclamaram no site Reclame Aqui por não encontrarem o medicamento.

Pacientes de diversas cidades do país têm registrado reclamações no site Reclame Aqui devido à falta de Rivotril em gotas nas farmácias.

Moradores de grandes centros urbanos, como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia e Campo Grande, bem como de municípios do interior, como Montes Claros (MG), Poços de Caldas (MG), Bauru (SP), Alambari (SP) e São Bento do Sul (SC), relataram a dificuldade de encontrar o medicamento em farmácias de suas cidades.

Alguns comentários expressam preocupação com os impactos na saúde devido à duração do desabastecimento, principalmente os pacientes que fazem uso contínuo do remédio e que relatam dificuldades na substituição pelo genérico.

Uma moradora de Teresópolis (RJ) relatou prejuízos pessoais e profissionais causados pela falta do Rivotril, afirmando que o genérico não substituiu adequadamente o medicamento original.

“A substituição pelo genérico já foi tentada, porém não surtiu o mesmo efeito terapêutico, acarretando prejuízos relevantes à continuidade do tratamento.”

Também há queixas de falta de informações e dificuldades de comunicação com as empresas responsáveis pela produção e distribuição. Uma pessoa que se identifica como médica em São Paulo, disse que estava indignada com a justificativa de “ajuste na planta de produção” e afirmou que faria reclamações na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Em novembro de 2024, a Blanver, atual detentora da patente do Rivotril, já havia anunciado a interrupção do medicamento nas seguintes versões: Rivotril 0,5 mg (apresentações com 20 e 30 comprimidos) e Rivotril 2 mg (apresentação com 20 comprimidos).

Apesar do desabastecimento temporário da versão em gotas e sublingual, especialistas afirmam que há alternativas genéricas contendo o princípio ativo clonazepam para que pacientes possam manter o tratamento sem interrupções.

Diferenças entre o medicamento de referência e o genérico

A psiquiatra Tânia Ferraz Alves, diretora de unidades de internação do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), recomenda com segurança o uso de versões genéricas do Rivotril, desde que o paciente mantenha o acompanhamento médico adequado e evite alternar entre marcas diferentes para garantir a estabilidade do tratamento.

“Quando há a necessidade de trocar do original para o genérico ou para um similar, recomendo escolher uma única marca e continuar comprando os produtos desse mesmo laboratório. Isso é importante porque ficar variando entre eles pode afetar a eficácia e a tolerância do paciente.”

Alves explica que um medicamento original, como o Rivotril, é o primeiro desenvolvido e estudado por um laboratório que detém a patente, neste caso, a Blanver.

Após a quebra da patente, surgem outras opções: o clone, feito pelo mesmo laboratório com outro nome para negociar preço, o similar, produzido por outro laboratório com nome fantasia, e o genérico, que usa o nome da substância (clonazepam).

Além do princípio ativo, os medicamentos têm diferentes substâncias que ajudam na ingestão, como corantes e estabilizantes, que podem variar entre laboratórios e causar diferenças na percepção do paciente, incluindo leves efeitos colaterais. Por isso a recomendação de permanecer com a mesma marca.

“Ainda existe um grande tabu em relação aos medicamentos genéricos. Muitas vezes, quando um paciente recebe um genérico, parte do pressuposto de que ele não possui a mesma qualidade do medicamento de referência, o que nem sempre é verdade”, afirma Débora de Carvalho, gerente de farmácia do Hospital Sírio-Libanês.

Segundo ela, os genéricos no Brasil são regulamentados por normas rigorosas e precisam passar por testes de bioequivalência e biodisponibilidade para comprovar que têm a mesma disponibilidade do princípio ativo que o medicamento original.

“Existem algumas percepções que vêm do próprio usuário. Quando a pessoa usa regularmente uma marca específica, seja ela genérica ou similar, pode acabar percebendo diferenças, mas muitas vezes essa sensação é fruto da própria percepção do paciente”, afirma Carvalho.

A reportagem entrou em contato com os órgãos responsáveis para esclarecer a situação sobre o fornecimento de Rivotril no sistema público de saúde.

A assessoria do Ministério da Saúde explicou que os recursos destinados à compra de medicamentos como o Rivotril são repassados aos estados, que ficam responsáveis pela aquisição conforme a demanda local.

A pasta afirmou que não controla diretamente a compra detalhada nem a marca adquirida, que pode ser tanto o medicamento original, Rivotril, quanto o genérico. O repasse é feito em valores globais para a atenção básica, sem especificação por medicamento, cabendo aos estados o detalhamento da distribuição para os municípios.

A SES-SP (Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo) afirmou que o clonazepam (genérico do Rivotril), nas apresentações de 2mg e 2,5mg, está sendo distribuído regularmente, sem interrupções ou atrasos, aos municípios participantes do Programa Dose Certa. Na cidade de São Paulo, a gestão do medicamento é feita pelo próprio município.

A SMS (Secretaria Municipal da Saúde) informou que possui estoque do medicamento clonazepam e que as unidades de saúde estão abastecidas com o insumo.

Fonte: Folha de SP


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