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Primeiro-ministro do Nepal renuncia em meio a protestos violentos; manifestantes incendiaram o Parlamento

Enquanto o primeiro-ministro nepalês, Khadga Prasad Sharma Oli, anunciava a sua renúncia nesta terça-feira (9), manifestantes furiosos incendiaram o prédio do Parlamento, na capital Catmandu. A renúncia ocorre um dia após protestos violentos, que deixaram 19 mortos e centenas de feridos em todo o país. Os nepaleses acusam o governo de autoritarismo e corrupção.

Pouco antes do anúncio da saída do premiê, as autoridades restabeleceram o acesso às redes sociais — um dos principais motivos que desencadearam as manifestações.

“Renunciei hoje ao cargo de primeiro-ministro para que sejam tomadas medidas em direção a uma solução política e à resolução dos problemas”, escreveu Khadga Prasad Sharma Oli, chefe do Partido Comunista nepalês, em carta destinada ao presidente do Nepal e divulgada pela imprensa.

Para muitos manifestantes, no entanto, o gesto não é suficiente para conter a crise.

“Não basta, mesmo que seja uma grande vitória”, reagiu um professor contatado por telefone pela RFI. “Sua simples renúncia não resolve, porque ele pode voltar ao poder em breve. Precisamos responsabilizá-lo, colocá-lo na prisão”, acrescentou.

Esse professor, que participou dos protestos de segunda-feira (8), defende mudanças profundas no país. “Precisamos de um novo paradigma; o que buscamos é uma mudança na Constituição, para que o chefe de Estado seja eleito pelo povo”, afirmou.

Manifestantes incendiaram o Parlamento

Em Katmandu, relatos da mídia local e imagens enviadas por manifestantes mostram atos de violência contra políticos e prédios públicos.

“A situação piorou claramente em relação a ontem”, disse um jovem presente nas manifestações. “Jovens estão invadindo sedes de partidos políticos, incendiando casas de políticos e destruindo suas propriedades. Queremos ver todos os políticos fora do poder e um novo governo assumir”, completou.

“Centenas de pessoas invadiram o complexo do Parlamento e atearam fogo ao prédio principal”, afirmou Ekram Giri, porta-voz do Parlamento nepalês.

O Exército foi mobilizado nos arredores do Parlamento em chamas. Segundo relatos, os militares retiraram autoridades por meio de helicópteros.

Parte dos organizadores dos protestos, no entanto, pediu que os prédios públicos fossem preservados, por serem “propriedade de todos os nepaleses”.

Um grupo de manifestantes conseguiu apreender armas de fogo de policiais que protegiam o complexo governamental de Singha Durbar, segundo observação de um jornalista da AFP.

A residência do primeiro-ministro, de 73 anos, também foi incendiada, conforme registro de um fotógrafo da AFP.

Redes sociais restabelecidas

O estopim da revolta popular no Nepal foi a suspensão das redes sociais. Na quinta-feira (4), o governo nepalês bloqueou o acesso a 26 plataformas digitais, incluindo Facebook, YouTube e X (antigo Twitter). O governo justificou a medida alegando que as publicações na internet alimentavam as tensões. No entanto, a decisão foi percebida como autoritária e o bloqueio desencadeou protestos massivos, reprimidos pela polícia, que deixaram 19 mortos.

Nos últimos dias, plataformas como o TikTok haviam sido inundadas com vídeos questionando o estilo de vida luxuoso dos filhos de políticos.

Segundo o governo, o bloqueio ao uso das redes sociais ocorreu em conformidade com uma decisão da Suprema Corte de 2023, que exige a nomeação de um representante local e de uma pessoa responsável pela regulamentação do conteúdo.

“O governo não queria bloquear o uso das redes sociais”, reiterou o primeiro-ministro, em sua declaração. “A intenção era apenas proteger a estrutura para seu uso adequado”, insistiu. “Não havia motivo para protestar por isso”, concluiu.

Incidente trágico

De acordo com diversos relatos, a polícia disparou munição real contra os manifestantes.

A Anistia Internacional exigiu “uma investigação completa, independente e imparcial” sobre as circunstâncias da intervenção policial. Ravina Shamdasani, porta-voz do Escritório de Direitos Humanos da ONU, expressou condolências e declarou estar “chocada com os mortos e feridos”.

Após prometer a criação de uma comissão de inquérito “para garantir que incidentes como este não se repitam”, o primeiro-ministro KP Sharma Oli anunciou, nesta terça-feira, que irá discutir com partidos políticos uma forma de “pôr fim” à violência. Ele afirmou estar “profundamente entristecido” com o que classificou como um “incidente trágico”.

Antes do anúncio, três de seus ministros — incluindo o do Interior — já haviam apresentado suas renúncias, segundo a mídia local.

Mesmo assim, os protestos continuam. Para muitos, a queda de KP Sharma Oli é apenas o primeiro passo rumo a uma transformação mais profunda do sistema político nepalês.

Fonte: RFI

Cibelle Freitas
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