O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) convocou neste domingo (26) o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos sobre a relação diplomática entre os dois países. A decisão foi tomada após o discurso do presidente argentino, Javier Milei, durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), realizada no sábado (25), em São Paulo.
Na diplomacia, a convocação de um embaixador brasileiro que está em missão no exterior para consultas é considerada uma medida de forte peso político. O gesto sinaliza que o governo deseja ouvir diretamente seu representante sobre episódios considerados sensíveis ou potencialmente prejudiciais às relações bilaterais.
Já a convocação de um embaixador estrangeiro para prestar esclarecimentos ao país anfitrião costuma representar uma demonstração formal de insatisfação diante de atitudes adotadas pelo governo representado.
Esta não é a primeira vez que Julio Bitelli é chamado a Brasília para tratar da relação entre Brasil e Argentina. Em julho de 2024, o diplomata também foi convocado pelo Itamaraty. No entanto, segundo fontes da área diplomática, a decisão deste domingo representa uma resposta mais firme do governo brasileiro.
Discurso de Milei
Javier Milei participou da convenção do PL que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Durante o evento, o presidente argentino fez críticas ao socialismo, defendeu políticas liberais e afirmou que a América do Sul vive uma mudança política. Em sua fala, também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca”, após ter sido impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Milei ainda associou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao que definiu como uma transformação política em andamento na América Latina, afirmando que diversos países estariam deixando governos de esquerda para adotar políticas econômicas liberais.
Na semana passada, a defesa de Jair Bolsonaro solicitou autorização ao ministro Alexandre de Moraes para que o ex-presidente recebesse a visita do líder argentino. O pedido, no entanto, foi negado.
Ao comentar a decisão durante a convenção, Milei criticou a Justiça brasileira.
“A Justiça brasileira não me permitiu visitar meu amigo injustamente encarcerado, quando Lula recebeu diversos líderes estrangeiros durante o período em que esteve preso, entre eles o então presidente da Argentina, Alberto Fernández”, afirmou.
O presidente argentino também classificou a prisão de Bolsonaro como injusta e criticou os responsáveis pela decisão judicial.
STF reage
As declarações de Milei motivaram uma reação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin.
Em nota oficial, Fachin classificou as falas como uma “referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro”, destacando que a decisão questionada foi tomada de acordo com a Constituição e as leis brasileiras.
O presidente do STF também afirmou que o tribunal lamenta manifestações incompatíveis com o respeito que deve nortear as relações entre os Estados.
“Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”, declarou.