Áudio revela orientação para omitir falha em avião da Voepass antes de tragédia de Vinhedo

Áudio revela orientação para omitir falha em avião da Voepass antes de tragédia de Vinhedo (Foto: Reprodução/EPTV)

Um áudio obtido pela EPTV, afiliada da TV Globo, revela que um funcionário da manutenção da Voepass orientou um piloto a não registrar uma falha técnica identificada durante um voo para evitar que a aeronave fosse retirada de operação.

Na gravação, o funcionário pede que o piloto converse com o colega que assumiria o avião para que o problema não fosse registrado oficialmente.

“Precisava que você entrasse em contato com o [nome omitido], é ele que vai assumir o seu avião aí, para não reportar a PACK, porque ele vai assumir a aeronave aí e vai conversar contigo. Só para não reportar, para não ficar AOG aí”, diz o áudio.

A sigla AOG (Aircraft on Ground) é utilizada quando uma aeronave precisa permanecer em solo devido à necessidade de manutenção ou à ocorrência de uma pane. Já a PACK é um componente responsável pelo sistema de ar-condicionado e de pressurização da aeronave.

O piloto que recebeu a mensagem, e que preferiu não se identificar, afirmou ao g1 e à EPTV que o episódio ocorreu poucos meses após o acidente aéreo em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024. Segundo ele, situações semelhantes eram frequentes dentro da companhia.

Ainda de acordo com o relato, havia pressão para que determinadas falhas não fossem registradas oficialmente, principalmente quando o equipamento já havia passado por manutenção. O piloto afirmou, no entanto, que nunca deixou de reportar problemas que considerava relevantes para a segurança do voo.

Ele também disse que funcionários que insistiam em registrar panes técnicas enfrentavam resistência dentro da empresa.

Em nota, a Voepass informou que não teve acesso ao áudio e afirmou desconhecer a gravação. A empresa ressaltou que possuía um sistema formal de comunicação para registro de falhas e que os colaboradores eram orientados a seguir rigorosamente os procedimentos estabelecidos.

Cenipa aponta “cultura de normalização de desvios”

A gravação reforça uma das conclusões apresentadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no relatório final sobre o acidente de Vinhedo.

Durante a apresentação do documento, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes afirmou que a companhia apresentava uma “cultura de normalização de desvios”, caracterizada pela aceitação de condutas operacionais inadequadas e por falhas no fluxo de informações relacionadas à manutenção das aeronaves.

Segundo o investigador, havia registros incompletos de panes e pressão para evitar que aeronaves fossem retiradas de operação quando os prazos para reparos não eram cumpridos.

O relatório também aponta que esse ambiente contribuiu para o enfraquecimento dos mecanismos de controle operacional e de segurança dentro da empresa.

Com informações do g1
Foto: Reprodução/EPTV

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