Diplomatas veem pior crise entre Brasil e Estados Unidos em mais de dois séculos

As relações entre Brasil e Estados Unidos atravessam o momento mais delicado em mais de 200 anos, segundo avaliação de diplomatas brasileiros ouvidos pelo projeto Memórias da Diplomacia Brasileira, desenvolvido pelo Museu da Pessoa em parceria com a Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB). Os relatos foram reunidos pelo jornal O Estado de S. Paulo e trazem análises sobre os desafios enfrentados pela diplomacia brasileira diante da atual conjuntura internacional.

Um dos entrevistados é o ex-embaixador Rubens Ricupero, que classificou o período atual como o mais grave da história da relação bilateral. Para ele, a postura adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa uma ruptura com padrões diplomáticos observados em outras crises entre os dois países.

Ricupero comparou o cenário atual ao período que antecedeu o golpe militar de 1964 no Brasil. Segundo ele, embora os Estados Unidos tenham sido apontados como apoiadores da articulação política da época, a atuação ocorria de forma discreta. Na avaliação do diplomata, o contexto atual se diferencia pelo apoio público manifestado por integrantes do governo norte-americano ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o que, segundo ele, aumenta a tensão nas relações diplomáticas.

Outros diplomatas também destacaram dificuldades no diálogo institucional. O embaixador Mário Vilalva, ex-cônsul-geral em Boston, afirmou que o acesso às autoridades norte-americanas se tornou mais restrito durante a gestão Trump, dificultando negociações e interlocuções consideradas estratégicas.

A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej avaliou que decisões adotadas pelo governo brasileiro nos últimos anos também contribuíram para o desgaste da relação bilateral. Entre os pontos citados por ela está a manifestação pública de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à então candidata democrata Kamala Harris durante as eleições presidenciais norte-americanas de 2024.

Já o embaixador Paulo Roberto de Almeida defendeu que o Brasil mantenha uma postura de autonomia e equilíbrio nas relações internacionais, evitando alinhamentos que possam ser interpretados como interferência em assuntos internos de outros países.

Os depoimentos também resgatam episódios históricos que marcaram a diplomacia entre Brasil e Estados Unidos, como a Guerra das Malvinas, o acordo nuclear firmado com a Alemanha nos anos 1970, o Programa Nuclear Brasileiro e as divergências envolvendo tecnologia sensível e acordos militares durante a Guerra Fria.

Para os diplomatas, além das divergências entre os governos de Lula e Trump, o cenário internacional passa por uma transformação mais ampla, marcada pela disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, mudanças na ordem internacional e desafios para países considerados potências médias, como o Brasil.

As entrevistas integram um projeto de preservação da memória diplomática brasileira e reúnem relatos de embaixadores que atuaram em diferentes períodos da política externa do país, oferecendo um panorama histórico sobre a evolução das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Foto: Ex-ministro Rubens Ricupero/ Arquivo Pessoal

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