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Editorial: Hexa não enche a geladeira

Semana de 17 a 23 de maio de 2026

A cada quatro anos, a mesma emoção toma conta do brasileiro.

As ruas ganham bandeiras, os amigos se reúnem diante da televisão, crianças vestem a camisa da seleção e o país inteiro parece respirar futebol.

Em 2026, não será diferente!

A próxima Copa do Mundo, organizada pela Fifa em conjunto com os Estados Unidos, Canadá e México, promete ser gigantesca, histórica e cercada de expectativas.

E claro: o sonho do hexa voltará a mexer com o coração do povo brasileiro.

Mas, é justamente aí que mora uma reflexão importante…

O Brasil pode ganhar a Copa. Pode levantar a taça. Pode parar o país em uma explosão coletiva de alegria. Mas, quando o juiz apitar o fim da festa, a vida real continuará esperando o brasileiro no dia seguinte.

O trabalhador continuará enfrentando filas nos hospitais. O aposentado seguirá preocupado com o preço dos remédios. O pai de família continuará fazendo contas para saber se o salário chega até o fim do mês.

O jovem continuará procurando emprego. E milhões de brasileiros seguirão convivendo com juros altos, dívidas acumuladas, insegurança e dificuldade para construir uma vida minimamente estável.

O futebol emociona. O futebol une. O futebol oferece um raro momento em que o país parece esquecer suas divisões. E isso tem valor.
O esporte é parte da identidade nacional, da cultura popular e da história do Brasil.

Não há problema algum em torcer, vibrar, comemorar ou se emocionar com a seleção brasileira.

O problema começa quando a emoção do futebol tenta substituir a consciência da realidade.

Nenhum gol resolve a inflação. Nenhuma vitória elimina a corrupção. Nenhum título mundial melhora sozinho a educação, o transporte, a segurança ou a saúde pública.

A taça não paga boleto. O hexa não enche a geladeira. E o grito de campeão não pode servir como anestesia social para um povo que enfrenta tantas dificuldades diariamente.

Historicamente, grandes eventos esportivos sempre foram usados como instrumentos de distração política em vários países do mundo.

E é justamente por isso que o cidadão precisa manter a lucidez. A paixão pelo futebol não pode contaminar o senso crítico do eleitor.

O brasileiro precisa separar o torcedor do cidadão.

Dentro do estádio, vale cantar, chorar e apoiar a seleção. Mas fora dele, continua sendo obrigação da população cobrar responsabilidade dos governantes.

Cobrar investimentos sérios em saúde, educação, segurança, geração de emprego e qualidade de vida.

Cobrar respeito ao dinheiro público. Cobrar políticas econômicas que permitam ao trabalhador viver com dignidade.

E, em especial, do governo federal — qualquer que seja ele — é necessário exigir maturidade administrativa e responsabilidade social.
Porque patriotismo não é apenas vestir a camisa verde e amarela durante noventa minutos.

Patriotismo também é garantir que o cidadão tenha acesso a oportunidades, segurança e esperança de futuro.

O Brasil não precisa escolher entre amar o futebol ou enfrentar seus problemas. Pode fazer os dois. Pode torcer pela seleção e, ao mesmo tempo, manter os olhos abertos para a realidade. Pode comemorar um título sem esquecer das dificuldades do povo.

Aliás, talvez a maior vitória que o brasileiro precise conquistar não esteja nos gramados da Copa do Mundo, mas no cotidiano das ruas, das escolas, dos hospitais e das casas humildes espalhadas pelo país.

Porque um verdadeiro país campeão não é apenas aquele que levanta troféus…

Mas, sim, aquele que consegue oferecer dignidade ao seu povo.

Cruzeiro FM com você o tempo todo!!!

Fernando Guimarães
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