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Após novo adiamento com a UE, Mercosul decide acelerar acordos com outros países

A frustração com mais um adiamento do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia levou o governo brasileiro a defender uma mudança de foco nas negociações comerciais do bloco. A avaliação, nos bastidores, é de que o Mercosul deve priorizar parceiros que demonstrem interesse real em avançar, enquanto o impasse com os europeus segue indefinido.

O acordo com a UE, negociado há quase 25 anos, chegou a ser tratado como praticamente fechado e poderia ser assinado neste sábado (20), durante a Cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (PR). O plano, no entanto, foi frustrado após a Itália se alinhar à França e exigir novo adiamento, sob o argumento de proteger agricultores europeus. A decisão levou à formação de uma minoria de bloqueio no Conselho Europeu.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente do Mercosul, afirmou que o bloco continuará avançando com outros parceiros enquanto o acordo com a UE não se concretiza. Segundo ele, a diversificação de acordos é fundamental para dar mais resiliência à economia do bloco. Lula citou negociações em andamento com países como Japão e Vietnã, além da expectativa de concluir o acordo com o Panamá.

Diplomatas do Itamaraty avaliam que, mais uma vez, o atraso foi provocado por exigências adicionais do lado europeu. Em 2019, o argumento era ambiental; agora, a pressão vem do agronegócio europeu. Para o governo brasileiro, todas as concessões possíveis já foram feitas, e o avanço depende exclusivamente da União Europeia.

Nos bastidores, embaixadores defendem que o Mercosul concentre esforços em acordos considerados mais viáveis no curto prazo. Entre eles, o mais avançado é o tratado com os Emirados Árabes Unidos, classificado como prioritário e próximo da conclusão. O bloco também negocia ou mantém diálogos com Canadá, Reino Unido, Japão, China, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia e Malásia, além de países da América Latina e do Caribe.

Apesar do impasse, o acordo com a UE segue sendo o de maior dimensão: envolve cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB estimado em US$ 22 trilhões. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o texto será novamente analisado pelos 27 países do bloco em janeiro.

O adiamento acabou ofuscando a Cúpula do Mercosul e frustrou os planos do governo brasileiro, que liderou as negociações e pretendia celebrar a assinatura ainda durante a presidência brasileira do bloco. Agora, a expectativa é de que uma decisão final fique para janeiro, já sob a presidência do Paraguai.

A decisão do Mercosul de acelerar negociações com novos parceiros, diante do impasse com a União Europeia, tem impacto direto sobre a estratégia econômica do Brasil e, de forma particular, do Estado de São Paulo, maior polo industrial e exportador do país.

Embora o acordo com a UE seja o mais ambicioso — envolvendo 720 milhões de consumidores e um PIB de US$ 22 trilhões —, a demora imposta por resistências políticas internas na Europa tem custo econômico. Setores como agronegócio, indústria de transformação, autopeças, máquinas, alimentos processados e químicos seguem enfrentando tarifas elevadas e barreiras não tarifárias.

Ao priorizar acordos com países da Ásia, Oriente Médio e América do Norte, o Mercosul amplia o acesso a mercados em expansão, com forte demanda por alimentos, proteínas, commodities industriais e produtos manufaturados, áreas em que o Brasil é altamente competitivo.

Douglas Valle
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