O número de servidores inativos que recebem supersalários é de 10,7 mil, segundo levantamento feito em conjunto pela República.org e pelo Movimento Pessoas à Frente, que analisou os pagamentos a servidores em 11 países, inclusive no Brasil, com dados referentes ao período entre agosto de 2024 e julho de 2025.
Os pagamentos acima do teto aos funcionários que já não trabalham somam R$ 3,98 bilhões.
Supersalários são aqueles que excedem o teto constitucional remuneratório, atualmente em R$ 46.366,19.
De acordo com o estudo, há 53,5 mil servidores que recebem mais do que isso. Ou seja, os 10,7 mil inativos que ganham mais do que o teto representam cerca de 23,3% de todos os supersalários da administração pública.
Em termos monetários, as proporções são semelhantes. O país paga R$ 20,01 bilhões acima dos limites constitucionais, e os R$ 3,98 bilhões que vão para os inativos equivalem a 20,5% do total.
O estudo também analisou os valores pagos a servidores do Executivo federal entre agosto de 2024 e julho de 2025. De cem maiores remunerações, 93 foram para membros ativos, inativos e pensionistas das Forças Armadas (Exército, Aeronáutica ou Marinha).
A pessoa que teve a maior remuneração no poder Executivo federal recebeu R$ 2,15 milhões. O valor do centésimo foi de R$ 1,31 milhão.
Na média dos 12 meses analisados pelo estudo, 2.156 servidores das Forças Armadas receberam acima do que o teto de R$ 46.366,19.
Sergio Guedes-Reis, autor do levantamento, diz que os militares costumam receber grandes somas quando vão para a reforma (o equivalente à aposentadoria) e que uma parte deles ainda segue trabalhando, mas na posição de adido militar (representantes em missões diplomáticas em outros países).
Na análise, há o exemplo de um coronel em missão permanente no exterior (o nome não é revelado) que recebeu, em 12 meses, US$ 330 mil (como se trata de um longo período, os autores do estudo simplificaram a conversão com a cotação de R$ 5,4 por dólar, e a remuneração desse militar foi contabilizada como R$ 1,78 milhão).
Os pagamentos acima do teto, no entanto, não são recorrentes, diz ele: “É uma bolada grande que ganham quando vão para a reforma (aposentadoria)”.
De acordo com o levantamento, é o Judiciário que lidera o número de pessoas que recebem mais do que o teto (são 21,1 mil magistrados). O Executivo federal está em segundo lugar, com 12,2 mil servidores. Em terceiro estão os membros do Ministério Público com 10,3 mil pessoas.
Apesar da dominância dos militares entre os cem maiores supersalários do Executivo federal, o maior problema de pagamentos acima do teto nessa esfera da administração pública está em carreiras como advogados da União, procuradores federais, procuradores da Fazenda e procuradores do Banco Central.
Segundo o levantamento, 64,2% dos servidores do Executivo federal que ganham supersalários são integrantes dessas carreiras.
Quase 6.800 servidores foram beneficiados com honorários de sucumbência que tiveram remuneração líquida de mais de R$ 1 milhão.
Honorários de sucumbência são pagamentos feitos por pessoas ou empresas que entraram em litígio jurídico com o governo, perderam a ação na Justiça e foram obrigadas a remunerar os advogados que representam a União.
Entre os mil maiores salários do Executivo, 728 são da AGU (Advocacia-Geral da União) e 177 são militares. Há 14 diplomatas e 81 que aparecem como categoria “inválido”.
O estudo também aponta problemas de transparência em relação aos pagamentos.
O pesquisador Guedes-Reis afirma que o principal deles é a falta detalhamento das parcelas de honorários advocatícios no Portal da Transparência, o que impossibilita saber a que se refere o montante pago.
Diferentemente dos subsídios básicos, como auxílio-alimentação, que são claramente discriminados, os honorários aparecem como grandes quantias sem discriminação nenhuma. Teoricamente, esse dinheiro pode corresponder a diversas naturezas, como o rateio por vitórias em causas da União ou pagamento de férias.
Ana Pessanha, especialista em conhecimento da República.org , afirma que a tendência é que os servidores da União que estão desenquadrados do teto constitucional resistam às medidas para tentar reforçar a validade do limite de remuneração.
Fonte: Folha de SP
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