Editorial

Editorial: Tarifaço e o dever do Brasil 11/07/2025

O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, pegou muitos de surpresa.

A medida, tida como uma das mais duras dos últimos anos contra o Brasil, já provoca reações no meio político e no setor produtivo.

E se, por um lado, acende um alerta sobre os riscos do isolamento diplomático, por outro, exige do governo brasileiro uma postura firme — mas serena — diante do desafio.

A decisão de Trump atinge em cheio o estado de São Paulo, principal motor econômico do país e o maior exportador industrial do Brasil.

Produtos como aviões da Embraer, autopeças, itens do agronegócio e até o tradicional suco de laranja — símbolo das exportações paulistas — estão diretamente ameaçados.

O governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi claro ao apontar o impacto “negativo” da medida para o estado.

Segundo ele, “São Paulo é um grande exportador, e os EUA são o maior destino das exportações industriais paulistas”.

Empresas de ponta, como a Embraer, que recentemente assinou contratos importantes, veem-se agora em uma encruzilhada.

Apesar do tom crítico ao governo federal, Tarcísio evitou atacar diretamente os Estados Unidos.

Preferiu adotar uma postura mais pragmática e pediu que o Brasil trate o assunto com “agilidade e sem revanchismo”.

Ele cobrou do Planalto a abertura urgente de canais diplomáticos para buscar uma solução que evite prejuízos ainda maiores. Segundo ele, “é hora de deixar as ideologias de lado”.

Por outro lado, o governador também não poupou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em suas redes sociais, atribuiu a responsabilidade ao atual governo, dizendo que Lula colocou “sua ideologia acima da economia” e que o resultado disso é a retaliação imposta por Washington.

Tarcísio associou o “tarifaço” a decisões recentes da diplomacia brasileira, que tem se aproximado de regimes autoritários e feito críticas públicas ao modelo norte-americano.

A declaração reacende um debate delicado, que vai além das tarifas e entra no campo das relações internacionais e da imagem que o Brasil projeta ao mundo.

Em entrevista à rádio Cruzeiro FM, nesta sexta-feira, no Jornal da Cruzeiro, a jurista e ex-deputada estadual Janaina Paschoal chamou atenção para a gravidade da medida.

Segundo ela, “todos se surpreenderam — não com a taxação em si, mas com a porcentagem. Mesmo aqueles que aguardavam algum tipo de resposta por parte dos Estados Unidos não esperavam algo tão severo quanto cinquenta por cento”.

Janaina ainda destacou que muitos setores da economia brasileira, mesmo que não dependam exclusivamente das exportações para os EUA, têm nesses contratos uma fatia significativa de seus lucros e sustentabilidade.

Ela citou, por exemplo, o setor de sucos, que há décadas mantém uma relação sólida com o mercado norte-americano.

Para Janaina, é um momento extremamente grave, que exige uma reação à altura — não por meio de bravatas, mas de estratégias reais de negociação e proteção dos interesses nacionais.

Nesse sentido, cabe uma importante reflexão: quais os caminhos que o Brasil deve seguir em meio a uma crise comercial como essa?

O primeiro deles é, sem dúvida, o da diplomacia profissional e técnica.

Não se trata de ceder ou se curvar, mas de dialogar com respeito e firmeza, mostrando que o Brasil é um parceiro confiável, estável e estratégico.

É urgente que o Itamaraty, com o respaldo do Palácio do Planalto, estabeleça pontes com a Casa Branca, o Departamento de Estado e organismos internacionais.

Não é hora de discursos inflamados ou culpabilizações públicas.

É hora de articulação, com base nos princípios do comércio justo e do interesse mútuo.

Afinal, também os Estados Unidos sairão prejudicados.

As tarifas podem encarecer produtos importados, afetar setores industriais que dependem de insumos brasileiros e gerar reações do próprio setor privado norte-americano.

O segundo ponto é olhar para dentro. O tarifaço de Trump escancara a fragilidade da nossa dependência de poucos mercados e da falta de um plano robusto de diversificação de parceiros comerciais.

Precisamos investir em novos acordos bilaterais, explorar mercados da Ásia, África e América Latina e, sobretudo, fortalecer a indústria nacional.

E por fim, o mais importante: é dever do governo federal proteger a qualidade de vida do cidadão brasileiro.

Porque, no final das contas, não são os números que sofrem, são as pessoas.

São trabalhadores que correm risco de demissão, são pequenas e médias empresas que podem falir, são famílias inteiras que podem ver sua renda ameaçada.

O brasileiro comum — que já enfrenta o custo de vida alto, o desemprego e a insegurança — não pode ser vítima de uma guerra comercial causada por falhas diplomáticas ou posicionamentos ideológicos mal calculados.

É responsabilidade de quem governa manter o equilíbrio econômico, garantir estabilidade e preservar os interesses da população acima de qualquer agenda pessoal ou partidária.

A diplomacia não é um jogo de vaidades. É uma ferramenta essencial de governo. E, neste momento, precisa ser usada com sabedoria, maturidade e foco no bem-estar do país.

Cruzeiro FM, com você o tempo todo!!!

Cibelle Freitas
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